Em 1977, Chico Buarque fez muito marmanjo levar os filhos a grandes casas de espetáculo, como o Canecão, para assistir Os saltimbancos. Todos queriam ver o musical infantil que ele acabara de traduzir e adaptar. Originalmente, era uma fábula musical inspirada no velho conto (alemão) dos Irmãos Grimm Os músicos de Bremen, que ganhara música do pianista, compositor e arranjador argentino, naturalizado italiano Luis Enriquez Bacalov (1933-2017), famoso por suas trilhas sonoras de cinema, e letra do italiano Sergio Bardotti (1939-2007), que trabalhou muitos anos com dois expoentes da canção italiana, Sergio Endrigo e Lucio Dalla. A história tinha tudo a ver com aqueles anos de opressão. As crianças se divertiam com os bichinhos e as belas músicas e os pais – mais engajados – poderiam ver que por trás daquela saga e humor infantis havia uma bela metáfora mostrando a crueldade do “capitalismo selvagem” em nossa sociedade, entre opressores e oprimidos, além de mensagens como “a união faz a força” (de um povo), evidente em canções como Todos juntos – que encerrava a apresentação (e o álbum) – e liberdade, em História de uma gata – “Nós, gatos, já nascemos pobres, porém já nascemos livres”. A peça foi um estrondoso sucesso. E a Philips (hoje Universal Music) à época não fazia muita fé que aquele seria um projeto de tamanho êxito comercial. Produzido pelo próprio Chico com Sérgio de Carvalho, deu supercerto. Um dos trunfos da peça/álbum é que os seus personagens ganharam vozes muito especiais, todos grandes compadres de Chico no meio familiar e musical, a começar por sua irmã Miúcha (a galinha), a amiga Nara Leão (a gata) e dois integrantes do MPB-4 – grupo que sempre acompanhava o cantor e compositor nos primeiros dez anos de carreira em apresentações ao vivo, e depois, continuaram fazendo coro em seus discos: Ruy (o cão) e Magro (o jumento).